sábado, 27 de setembro de 2008

O Íntimo

Ele corre pra fechar a janela, pois a porta do quarto ele já fechou. Ele não possui nada naquele quarto. Nem o cruxifixo em seu pescoço, nem as roupas que usou, antes de jogar tudo no chão.

Ele tem fome! Sabe pouco sobre ela, é recente essa fome, mas ele tem. O corpo lhe coça, e ele tem tudo que precisa para matar essa fome: suas mãos, sua mente, e seu sangue que lhe corre fervendo nas veias. Então os olhos se fecham, poupando a realidade, tentando focar algo mais que figuaras embaçadas através de um imenso vitral. Figuras essas que ele viu horas atrás, ou minutos...

Ele está só, e imagina alguém. Ela não é ninguém especial, é a professora de história, ou então a coleguinha de classe, que senta ao lado de sua carteira, e cujo corpo toma as formas de uma mulher mais rápido que o corpo das outras meninas. Ele pensa em como isso é intrigante, e, enquanto pensa coisas assim, entra em comunhão com o ambiente de seu quarto. Coma as persianas que permitem a entrada da luz, em alguns cantos, como que por capricho. As paredes frias e intransponíveis, lisas. o chão frio de ardósia, desconfortável de se deitar.

Esse quarto é a sua fortaleza. Ali não há pudores, pois há, assim como um fio de luz que chega ao corpo dele, um fio remanescente de inocência, de pureza, que o prende à infância.

De repente, o quarto está cheio!

Ele lembra dos brinquedos, pensa na bola de futebol, e logo em seguida lembra da estampa de flores brancas no vestido verde da professora. Ele se lembra do volume cada vez mais crescente na blusa do colégio da coleguinha.

Ele sente o sabor salgado do suor no canto da boca, sente este escorrer pela testa, o cabelo toma formas diferentes de seu penteado, fica úmido. O corpo mexe, e não é vulgar, pois ele não sabe o que é ser vulgar ainda. Ele vê atrávés das flores brancas da estampa, além do vestido, faz a blusa do colégio desaparecer... o que há lá? O que há lá???

Ele percorre seu corpo quente com a mão lisa e livre dos calos que vai criar um dia. O corpo lhe coça, e ele treme: O que há lá?

Ele sente a perna formigar, e elas endurecem, flutuam no ambiente, e com sua outra mão ele segura a ponta de um travesseiro, deslizando seus dedos nas pequenas dobras do tecido. Ele recorda o perfume da professora, o cheiro do xampú da colega.

Ele vê então, incrivelmente reais, os seios delas se movendo, ele sente suas nádegas, sua textura, sua ternura. Ele quase não sabe o que aquilo tudo significa, só tem uma vaga noção do que procura, do que quer sentir.Nem o chão, agora quente, nem as paredes abafadas, nenhum objeto ali explica o que está ocorrendo.

Ele chega a suspirar, perde o fôlego, puxa o ar pra dentro dos pulmões, e sussura nomes femininos. De repente, um pequeno gemido, inaudível, mas era um gemido! Era algo que lhe tirava as forças.

Ele sentia a boca carnuda da professora, suas mãos acariciando as pernas. Sentia a língua da colega, mas sem saber como surgiram aquelas imagens em sua mente, que podia controlar, mudar suas formas, mesmo sem nunca ter visto, sem nunca ter vivido aquilo.

Não há sequer um cenário nos seus pensamentos! Não há fundo, perspectiva, nada disso, nada de formas feitas, ele alterava tudo, tudo! Havia pele na pele, sua boca aqui, a boca delas acolá. Havia o toque, só sensibilidade, só o mistério da carne!

Ele treme mais, ele sua mais, geme de novo, e explode. Uma explosão breve, mas que faz com que o tempo pare. O ambiente fica sufocante e distorcido. Estaria ele ainda vivo? E aquela sensação? Sentia arrepios de um vento vindo sabe-se lá de onde, e, acima de tudo, o coração estourava o peito sem pêlos, e fazia tremer seus pensamentos, trazendo desordem.

Ele está nu, sem fôlego e um pouco trêmulo, num chão molhado, com paredes abafadas. Entorpecido, ele retorna ao mundo real, o vazio escuro, mas aconchegante, que lhe permite tal intimidade. É como se a serpente do desejo o tivesse picado, como de fato ocorreu.

Ele levanta, coloca a camiseta, o short. Calça a chinela, abraça a bola de cobertão, e vai pra rua jogar futebol. Ele já se esqueceu de tudo, o que ele havia vivido ali, só os objetos guardam, até a próxima vez.

Amanhã ele voltará com o mesmo rosto, com o mesmo passo, e vai se lembrar da professora e de seu novo vestido, e também do uniforme da colega. De novo aqueles devaneios, de novo aquele ritual místico, e de novo a indagação que não cessa:
O que há lá???

4 comentários:

   "...é impossivel viver só sorrindo..."    disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
   "...é impossivel viver só sorrindo..."    disse...

interessante!

Leandro disse...

Eu me ví dentro do texto.

Bruno disse...

Belas palvras!!!

ou Lut vc tem aquelas textos poemas, que vc fazia la no brejo????

posta elas ae